ESTRADAS NA VARANDA

 

 
O Banho da Mulata

 

Aconteceu de eu assistir ao banho da Mulata. Aconteceu de eu estar ali, no lugar certo, no momento certo, na exata posição que permitiu aquele instante de deslumbramento, aquele êxtase sensorial.

Recordo e escrevo sobre aquele momento, tentando fixá-lo em palavras chave, para que possa ler depois e reviver todas as circunstâncias, todos os detalhes do que chamo de momento maravilhoso. Quando são escritos, pensamentos e impressões parecem ganhar uma certa solidez, uma certa concretude, permitindo um relembrar mais fiel aos fatos. É isto, ou perder a caneca.

A caneca. Perto do momento maravilhoso, é difícil imaginar que importância poderia ter uma caneca, uma cuia, uma gamelinha, uma latinha qualquer. Acontece que a caneca foi geradora do momento maravilhoso, mesmo sendo objeto tão sem importância, muito usada por centenas e centenas de banhos, cheia de mossas, borda escurecida pela fuligem do fogão à lenha. Um objeto que em parceria com uma bacia, mais um pedaço de sabão de cinzas, perfumado com flores e capins esmagados, juntados à massa antes de esfriar e mais  um paninho de mão, faz a toalete de milhões de pessoas, por ai, pelos rincões e sertões.  A caneca. De simples passou a ser uma joia. Por frações de um único segundo, mas passou. Para mim, a joia é o momento maravilhoso. Para a mulata, o precioso é ser a mulata.

A mulata. Um termo que se iguala ao infinito, já que é impossível, exceto por umas coisinhas aqui, outras ali, dizer o que é. Muito mais fácil é dizer o que não é. Como o infinito, a mulata não tem início nem fim. Também é possível dizer que aquela ou aquela mulher, apesar de serem lindas e sensuais, não são mulatas. Sabe-se dizer que a negra linda e sensual é negra, não mulata. A morena pode ser morena por conta da cor dos cabelos, por conta do tom de pele, mas a morena não é necessariamente mulata, embora as mulatas sejam, em geral, morenas. Também se pode dizer que os seios das mulatas são únicos, na forma, na textura, no sabor ou na sombra que projetam. Sabe-se que as nádegas das mulatas são perfeitas na forma e movem-se em oscilações harmoniosas e repletas de ritmos, não importa o volume que tenham. Há outra coisa peculiar na mulata, um mistério, outro elo de semelhança com os mistérios que não podem ser compreendidos com racionalidades. São as pernas da mulata, sempre perfeitas e dotadas de magia exclusiva. Pode-se deduzir toda a beleza da mulher mulata, por um rápido vislumbre de qualquer parte de suas pernas. Este exercício da imaginação é sempre agradável, sempre prazeroso, sempre surpresa. Tocar, apertar, beijar, abismar-se em mordidas neste mistério, sentir o sabor do que se pensa é como mastigar acordes.

Nua, banhando-se, ajeitando os cabelos, presenteando-me com toques, carinhos e afagos. Gotas de água fria arrepiando a pele perfumada por cinzas e seivas. Nua, não para sempre. Agora foi a vez da toalha branca assumir a missão de acariciar. Nua, até que uma pequenina peça de roupa cobrisse partes do corpo da mulata, exatamente como se um fragmento de cinza solto na brisa, viesse tocar e grudar-se à pele úmida. Nua não, porque agora é a vez de um vestido leve nãonuar o corpo dela. Recatado, obscenamente simples. Feminino, moderadamente decotado. Excitante, pouco acima dos joelhos. Lascivo, meio translúcido contra o sol. Insinuante, aceita o vento.

O Momento maravilhoso aconteceu na hora de jogar fora a água usada. Pela janela, com educação. Não pela porta, gafe imperdoável. A bacia foi cheia, pesada, e voltou vazia, leve. Ao voltar, bateu na caneca, que restava impassível sobre uma banqueta. Assim como há razões para que o infinito seja o que é, sem que saibamos dizer o por quê dele ser, também o gesto da mulata para tentar impedir que a caneca caísse ao chão de terra pisada,  não tem explicação plausível. Um gesto brusco, inútil, sem resultado prático, um susto, um tentar evitar o inevitável, um reflexo do instinto, que poderia ser dirigido a qualquer coisa que estivesse caindo, colares, joias de diamantes, brincos de alumínio manchados por fuligem. Quem sabe? O gesto brusco, alongou o corpo da mulata, o braço bruscamente lançado à frente fez com que a barra do vestido subisse para além do seu limite, revelando partes de suas coxas, perfumadas por ervas e raízes. Foi assim, durante uma fração de fração de tempo, que a mulata tornou-se mulher. Igualou-se a todas as mulheres que geram momentos maravilhosos, quando revelam partes das pernas, acidentalmente, displicentemente, nãonuamente.


 
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