ESTRADAS NA VARANDA

 

 
Militância da Utopia

Começo a propositura de minha ideia maluca, já sabendo que ela é só isso mesmo, uma coisa maluca. Se houver mais alguns doidos que concordem comigo, pode estar nascendo um grupo militante, depois um segmento enorme do tecido social, depois a revolução. Acho que além de mim, deve haver outras pessoas que não têm orgulho de serem estúpidas. De minha parte, quando faço alguma burrice, fico envergonhado e chateado. Se dá, peço desculpas, tento arranjar as coisa, melhorar o estrago. Muitas vezes não dá, fato que me deixa com uma baita frustação. A única coisa que alivia o sentimento de culpa é a consciência de que fui bestão, mas não sinto orgulho disso, ao contrário.

Não ter orgulho de ser um estúpido, uma besta geométrica, deveria ser o normal, mas não é. Eis ai a utopia: não ter orgulho de ser estúpido. Muitas bobagens que a gente faz são inevitáveis, por ignorância ou acomodação social. Tudo bem, não saber sobre um comportamento adequado dentro de um contexto particular, agir ao contrário do que se pensa e sente para não magoar ou complicar as coisas, é parte de nosso cotidiano civilizado. Cometer erros faz parte de nossa eterna condição de aprendizes. Até este ponto estamos no plano seguro da normalidade. Entretanto, tenho notado uma grande mudança no modo de encarar a bestice, não como algo deplorável, execrável, abominável, nada disso, mas como algo valorizado pelo ser estúpido e um crescente número de criaturas que convivem a sua condição idiótica.

 Há uma infinidade de bons exemplos sobre o orgulho de ser estúpido, mas a minha ideia utópica maluca tem uma representação totêmica, que é a lombada, aquela pintadinha de amarelo, cor bem viva, tinta refletora da luz de faróis; aquela que é precedida por placas de aviso sobre os metros que faltam para se deparar com ela, que tem ao seu lado uma placa que indica que ela está ali; aquela que é precedida por uma placa que indica  limitação de velocidade, presença de pedestres e de crianças que podem não estar aprendendo que ser idiota não é motivo de orgulho.


 
  VOLTAR